A meteórica valorização da Tesla, que em apenas duas décadas de existência virou marca queridinha dos mais descolados eletroentusiastas da transição energética dos automóveis, sempre se confundiu com a performance empresarial de seu maior acionista e CEO Elon Musk.

É natural, portanto, que a recordista perda de valor de mercado das ações em bolsa, de eletrizantes US$ 795 bilhões apenas no decorrer dos últimos três meses, também seja debitada da conta de seu chefe maior – agora mais entretido com suas funções exóticas de gestor de eficiência do governo imperial de Donald Trump nos Estados Unidos.

As ações da Tesla na Nasdaq – bolsa de valores especializada em empresas de tecnologia – fizeram no último ano uma curva parecida com a silhueta da cadeia de montanhas do Himalaia. A velocidade da escalada de subida e descida dos papeis foi rápida, puxada pela eleição de Trump e o alinhamento canino de Musk à política de extrema direita de seu atual chefe.

Tesla Cybertruck

Por causa de resultados financeiros frágeis e tendência de queda de vendas de carros elétricos, até agosto do ano passado a ação da Tesla estava cotada na Nasdaq a US$ 190 – o papel já tinha perdido muito valor em relação aos picos de 2020 e 2021, quando a empresa ganhou cotação de mercado superior a de companhias tradicionais do setor como General Motors e Ford. Mas após a vitória de Trump, em novembro, a ação mais que dobrou, saltou ao pico de US$ 480 e a Tesla chegou a valer US$ 1 trilhão – o equivalente à metade do PIB brasileiro de 2024.

Contudo a baixa também veio a galope texano, este ano, logo depois que o republicano e seu séquito exótico assumiram o poder total nos Estados Unidos. Com ameaças e adoções de tarifas pesadas a parceiros comerciais que mais atrapalham do que ajudam a indústria do país, somadas às ações intempestivas de Musk após sua nomeação como chefe do Departamento de Eficiência Governamental – até agora mais empenhado em demitir funcionários públicos e fechar seus departamentos – a realidade bateu nas cotações da Tesla, que em poucos dias perdeu cerca de metade de seu valor de mercado.

No início de março o papel caiu a US$ 220 e terminou o dia 24 cotado a US$ 278. Mas o problema maior parece ainda estar por vir: a maioria dos investidores não acredita em recuperação e muitos já venderam suas posições na Tesla.

O JP Morgan projeta que a ação poderá descer a US$ 120 até o fim de 2025: “Nós nunca vimos nada parecido na indústria automotiva, uma empresa que perdeu tanto valor tão rápido”, escreveram os analistas do banco em relatório.

Tiro pela culatra

Ironicamente, como companhia aberta negociada em bolsa, recentemente a Tesla se viu obrigada a enviar ao mercado e a seus acionistas um comunicado de alerta, afirmando que a empresa está sujeita a potenciais tarifas de retaliação por causa das sobretaxações impostas por Trump, o que deve encarecer seus custos de produção nas fábricas dos Estados Unidos, Alemanha e China, reduzindo os lucros.

Sócio do fundo de investimento Clean Energy Transition – o nome parece autoexplicativo –, que tem US$ 1,5 bilhão aplicados em empresas de risco, o investidor Peter Lakander é mais assertivo: “Musk está do lado errado de seus clientes, não são pessoas que usam botas de cowboy que compram um Tesla”, disse, talvez em alusão ao fato de que Musk está transferindo boa parte dos novos investimentos da Tesla nos Estados Unidos para a fábrica do Texas, em detrimento de novos aportes nas plantas da Califórnia, onde a empresa foi originalmente fundada.

Como já disse Trump em seu recente discurso ao Congresso, ao elogiar os feitos de Musk no governo e com olhar solidário para o empresário sentado na plateia: “Ele não precisava disso, ele não precisava disso”.

tesla model y

De fato, a aventura política já custou US$ 100 bilhões ao patrimônio líquido pessoal de Musk, segundo calculam analistas, que já preveem problema maior se as cotações continuarem a cair para níveis abaixo dos US$ 150 por ação: neste caso o empresário será obrigado a aportar mais dinheiro para compensar as perdas das ações da Tesla que ele deu como garantia nas transações financeiras que fez para comprar o Twitter, atual X, também usado como canal preferencial para expansão de suas polêmicas.

Todos os analistas atribuem a queda de valor da Tesla às recentes estripulias políticas de seu dono, como a tentativa de interferência nas eleições da Alemanha ao apoiar o partido de extrema direita AfD, de ideário nazista, ou mesmo as muitas idas e vindas de suas intervenções em diversos órgãos da administração pública dos Estados Unidos.

Se a ideia de entrar para o governo foi para promover seus interesses pessoais e os ganhos de suas empresas, no caso da fabricante de carros elétricos o tiro saiu pela culatra, como diz o analista Lakander: “A Tesla tinha valor de mercado muito forte que Musk manejou para destruir totalmente”.

Esta destruição parece atingir até a alta administração da Tesla: no que se assemelha ao abandono de um navio prestes a naufragar, fontes de mercado dizem que executivos e conselheiros, incluindo o chefe financeiro, Vaibhau Taneja, e o presidente do conselho de administração, Robyn Dunholm, estão vendendo suas ações da empresa.

Valorização irreal

A verdade é que a Tesla já vinha apresentando resultados ruins e a eleição de Trump, com Musk ao seu lado, foi capaz de puxar uma recuperação irreal típica de especulação em bolsas de valores, sem lastro no balanço da companhia que justificasse tamanha valorização. Em 2024 a Tesla apurou receitas de US$ 97,7 bilhões, praticamente iguais às de 2023, e queda de 53% no lucro líquido, que fechou o ano passado em US$ 7 bilhões.

Foi necessário dar muitos descontos para enfrentar a concorrência cada vez mais acirrada, especialmente de fabricantes da China, com a BYD à frente. Assim as vendas globais em 2024 ficaram estagnadas em 1,79 milhão de carros e a Tesla perdeu para BYD o posto de maior fabricante de veículos elétricos do mundo.

Desde 2019 a Tesla não lança nenhum carro de volume como o Model 3. Com isto os concorrentes chineses não só alcançaram como ultrapassaram a icônica empresa de Musk, que prometeu muitas evoluções, como robotáxis e plataforma própria de inteligência artificial, mas entregou poucas dessas promessas até agora. A grande aposta da companhia no momento é o lançamento, este mês, do novo SUV Model Y, já produzido em três países: Estados Unidos, Alemanha e China.

O provável recall de todas as picapes Cybertruck já produzidas no Texas, que estão soltando partes da carroceria por problemas de fixação da cola, também é visto como de grande potencial para ampliar as perdas da Tesla este ano – neste caso a irônica sorte é que o estranho modelo nunca foi um sucesso de vendas.

Tempestade perfeita

E o ano não começou nada bem para a Tesla, com ataques diretos à marca. No início de março uma dúzia de carros da fabricante foram incendiados no sul da França e nos Estados Unidos em Boston, Las Vegas e no Oregon. Com a escalada de violência contra a empresa e seu CEO o Vancouver Autoshow, no Canadá, quer remover a Tesla da exposição por preocupações com a segurança do evento.

Evidências apontam que as ocorrências são a reação negativa às ações de apoio à extrema direita de Elon Musk, que já foi tema de recentes protestos populares na Alemanha, no Reino Unido, Canadá e nos Estados Unidos.

O desempenho de mercado neste início de ano está em linha com a imagem arranhada da marca. No primeiro bimestre, em comparação com o mesmo período de 2024, as vendas da Tesla caíram 11% nos Estados Unidos, na Europa houve retração de 44% e na China o tombo foi de 49% – lá a empresa produz os Model 3 e Y e tem sua maior fábrica, com capacidade de produzir 950 mil carros por ano.

Também na Europa a competição está muito maior para a Tesla. A Volkswagen, por exemplo, oferece generosos descontos em seus modelos elétricos rivais dos Model 3 e Y para atingir metas de emissões mais restritivas da União Europeia em 2025.

“Os competidores não só alcançaram a Tesla em termos de portfólio e tecnologia mas também cortaram preços porque precisam atender a legislação europeia para não pagar multas”, explicou Benjamin Kibies, analista da Dataforce, em entrevista ao Autonews Europe. Ele acrescenta: “A Tesla está passando por uma tempestade perfeita”.

Diante da piora rápida da situação alguns de seus maiores investidores já pedem que Musk se afaste da direção da empresa, ao menos enquanto estiver envolvido na aventura política de impor seu padrão de governança ao governo dos Estados Unidos.

O sentimento é que a Tesla está em um estágio crítico e sem um CEO totalmente engajado em sua gestão será difícil superar as adversidades – menos ainda quando o próprio dono impõe novas dificuldades à empresa.


Foto: Divulgação

Pedro Kutney
Últimos posts por Pedro Kutney (exibir todos)
ASSINE NOSSA NEWSLETTER GRATUITA

As melhores e mais recentes notícias da indústria automotiva direto no sua caixa de e-mail.

Não fazemos spam!